Artigo de Opinião 01

Gostaria de oferecer uma diferente abordagem, eventualmente mais ampla e holística, sobre o fechamento da Maternidade Alfredo da Costa que é capa dos jornais de hoje. A soma do que são aparentemente pequenos acontecimentos isolados são na realidade parte de um todo que vem mostrar que há algo muito errado com a sociedade, nosso sistema democrático e com a participação da cidadania na esfera política. Isso tem implicações em todas as esferas da crise que estamos vivenciando que é ao mesmo tempo económica, social e ambiental. Por outo lado defendemos que há opções viáveis, que não são nada comuns e que deixam de lado a dicotomia predominante entre esquerda x direita, capital x social, mas que essencialmente são simples e estão ao alcance de todos.

Pelo menos teoricamente a participação do cidadão na sociedade está dividida em três esferas simultâneas: A esfera privada, o estado e o mercado. Na intersecção destas três está a esfera pública que é o espaço da participação, da diversidade, da intersubjetividade, dos interesses comuns, da resolução dos problemas, da transparência e das representações sociais.  Ainda teoricamente, o privado, o mercado e o estado são livres para agir desde que respeitados os interesses comuns que, para efeito dessa reflexão, poderíamos dizer que são a igualdade de oportunidade de acesso aos recursos naturais, à educação, à saúde, e a produzir para o seu próprio sustento.

A esfera da vida privada só diz respeito ao indivíduo, a sua família e/ou aqueles com quem mantém relações de proximidade e intimidade. O Mercado são os interesses da economia, num sentido mais alargado, os interesses do capital. O estado é uma esfera representativa a qual escolhemos para governar de forma democrática e transparente em nome dos interesses de todos, mas pelo qual somos todos responsáveis.

Ao viver em comunidade ­— seja em família, no condomínio, na cidade, no local ou no global e que correspondem também a outras escalas do mesmo processo como sistemas dentro de outros sistemas — não é possível abdicar da participação na esfera pública pois é nela que se dão as relações em rede onde constituem-se os indivíduos. Nós enquanto indivíduos sociais e biológicos, participamos na esfera pública através das sensações, das emoções, da razão e da linguagem que possibilita toda a nossa comunicação. Ao entrar na esfera pública ­— pelo menos teoricamente — os participantes deveriam deixar de lado os seus interesses particulares em nome dos interesses que são comuns à todos.

Nos dias que correm, a esfera privada foi jogada na rua e o que nos distrai e dá prazer é saber da vida alheia. O que nos preocupa e ocupa são a escapadela ou o aspecto do vizinho, a bola e a desgraça do futebolista corno, a opção sexual da doutora, da prostituta que subiu na vida, do empresário ladrão que enriqueceu comprando políticos de plantão, ou do cleptocatra bem apessoado que virou governante junto com todas as suas aventuras amorosas ambições egoístas. Por outro lado e ao mesmo tempo, os interesses do mercado tomaram de assalto o estado, e a mentalidade predominante na administração dos bens comuns da comunidade é a limitada visão da economia a ponto que o produto interno bruto é a medida de bem-estar de uma nação.

Em nome da eficiência e do crescimento económico, cultivam-se as emoções e a linguagem erradas, como o medo e a competição. Abdica-se da razão e do que diz respeito a todos: da subjetividade da felicidade, do bem estar comum, dos recursos naturais, das outras espécies e dos demais elementos que sustentam a vida.

O que terá a MAC a ver com isso? Simples: É um exemplo claro do que acima referi. Em nome do interesse económico e em processos unilaterais e nada transparentes, fecham-se maternidades, centros de saúde, escolas, juntas de freguesia; privatizam-se os bens comuns, as praças, logradouros e estações e criam-se grandes centros bem distantes uns dos outros, mas onde é mais fácil controlar o indivíduo.

Ora, são exatamente estes espaços físicos e também públicos onde se dá de forma democrática a participação na esfera pública e onde se estabelecem os laços de comunidade. Compreendem a dimensão do problema?

Quem é o culpado? Nós somos! Fomos nós que delegamos a administração da casa a um bando de cleptocratas, aos quais pagamos e os quais deveriam prestar-nos contas do seu trabalho, mas que em nome de interesses económicos e privados já não nos perguntam mais onde e como investiremos as nossas riquezas. Somos nós que temos que prestar contas e estar sujeitos ao crescente controlo estatal. Já nos contentamos com promessas vãs e esquecemos com facilidade os fatos.

Ainda pior, deixamos o tempo passar. Foi bom enquanto durou. Mas estivemos e ainda  estamos preocupados com os nossos interesses privados. Estivemos demasiado preocupados e ocupados em trabalhar muito para produzir o quê, como, por quê e para quem não sabemos ao certo, mas foi para podermos pagar pelo nosso bem-estar, para comprar a felicidade de plástico  e garantir o futuro incerto.

O que acontece hoje em Portugal e no globo é o reflexo de uma sociedade que se deixou adoecer pois descuidou-se, ou nunca viu,  a essência básica da existência humana: às suas relações ecológicas.

Há por aí, na diversidade humana, exemplos inspiradores. Os índios Kalapalo são um povo indígena do Alto Xingu no Brasil, caracterizados por comportamentos que os distinguem da maioria das sociedades humanas: Nota-se no seu convívio a ausência de agressividade pública, a habilidade de não provocar situações que causem desconforto ou constrangimento aos outros, a prática da generosidade, a hospitalidade e predisposição para doar ou partilhar posses materiais. Os Kalapalo acreditam que a viabilidade de sociedade depende do cumprimento deste ideal.

Ao assumir a globalização deveríamos também recuperar e valorizar as especificidades e diversidades do que é local ou indígena, autóctone, nativo, etc. O global passaria portanto a ser a possibilidade de habitarmos, conversarmos e partilharmos o mesmo planeta e os seus recursos naturais com os demais seres. O local representa a diversidade das culturas construídas com base na confiança mútua, no respeito, na conversa, no amor das relações de proximidade, do espiritual, da resiliência e da abundância dentro dos limites do ecossistema com o qual interagimos diretamente e de forma consciente. O Local é a própria biodiversidade natural e humano-cultural que faz o global mais abundante e rico. A coexistência de ambos corresponde a duas dimensões de relação com a comunidade da vida: A da biosfera terrestre e a da bio-região. Ambas são sagradas e nosso lar.

Para usar um estrangeirismo da atualidade: Occupy ecovillages! Criemos então comunidades onde estivermos. Redesenhemos nós mesmos a governança e os ideais de coexistência pacíficas com recurso ao cultivo do autoconhecimento, das boas emoções, da conversa, do brincar e no design que é a expressão de fazermos as coisas juntos. Para isso as ferramentas deverão estar disponíveis e ao alcance de todos; compreenderemos o nosso ambiente, lhe daremos um novo significado, assim como ao trabalho e celebraremos a vida, a saúde e a alegria como parte do mesmo todo. Acima de tudo valorizaremos e não esqueceremos do passado para viver o presente e construir o futuro. Uma vida mais simples e plena esta portanto a mão de semear.

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